
Propina das vans já supera a do jogo do bicho
Investigação mostra como chefões negociam ‘caixinha’ para policiais
João Antônio Barros e Thiago Prado
Rio - A bandalha que empurra o transporte alternativo enche o bolso dos maus policiais. E com muito dinheiro. Tanto que, em bairros da Zona Oeste e alguns da Zona Norte do Rio, as propinas das vans já são bem maiores do que a caixinha do jogo do bicho. A ‘contribuição’, que serve para fechar os olhos da fiscalização e da repressão às Kombis ilegais, aos motoristas com direito de dirigir suspenso e as paradas em locais proibidos, movimenta perto de R$ 4 milhões por mês.
Adesivos com símbolos são os ‘ícones’ para identificar quem está em dia com a propina e funcionam como selos de vistoria para burlar a fiscalização
A montanha de dinheiro ganha destaque nos bairros da Ilha do Governador, Jacarepaguá, Madureira, Campo Grande e Centro. Neles, a estimativa é que, mensalmente, as caixinhas pagas pelos motoristas e cooperativas cheguem entre R$ 80 mil e R$ 120 mil. Curiosamente, os quatro primeiros locais concentram a maior parte das linhas ilegais.
Os bastidores da caixinha foram desnudados durante a fase de investigação da Operação Furacão, realizada pela Polícia Federal. Em interceptações telefônicas, o inspetor Marcos Antônio dos Santos Bretas aparece conversando sobre o pagamento de propinas a policiais com o agente penitenciário Sebastião do Nascimento Custódio, o Tião do Desipe. Eles citam o rei das vans no Rio, César Moraes Gouveia, o Cesar Cabeção, como o chefe do esquema. É ele quem decide quanto será pago. Tião e César comandam a Cooper Rio da Prata, em Bangu.
Numa dessas conversas, Tião relata que César só topa pagar R$ 20 por Kombi a uma equipe de policiais. Ele desabafa com Marcão, diz que está difícil convencer, pois o grupo quer R$ 100 por semana. O inspetor orienta a endurecer e a esconder a quantidade de veículos. Mas Tião diz que os “caras sabem que a cooperativa tem 80 linhas”. Dias depois, no momento em que revela já ter passado por duas delegacias (na Zona Norte e na Zona Oeste), afirma que o “negócio” caminha para fechar em R$ 50 e informa que o desfecho foi selado num almoço com direito a quatro garrafas de vinho. A Rio da Prata tem 900 Kombis oficiais.
A Rio da Prata não está só no envolvimento com propinas. Numa investigação feita pela Draco, o vice-presidente da Cooperativa Alternativa de Cascadura, Ismael Vitelbo da Silva, demonstra preocupação por não conseguir levantar o valor pago semanalmente à quadrilha do ex-PM Fabrício Fernandes Mirra, já citado na CPI das Milícias, na Alerj, como ligado a ações paramilitares. Ele justifica a PM Alexander Dantas — sócio de Mirra — que o Detro está reduzindo o ganho e “com dificuldades em arrecadar o dinheiro”.
O delegado Marcos Neves, ano passado, relatou a seus superiores que o ex-vereador Jerominho Guimarães, preso na Penitenciária Federal de Campo Grande, tinha oferecido R$ 50 mil por mês para suspender as operações da 35ª DP (Campo Grande) contra vans ilegais. Outro delegado, da Zona Oeste, revelou que a delegacia recebia mensalmente caixinha das vans. Parou quando indiciou os envolvidos.
O resultado de tanta corrupção fica visível nas ruas. As vans e Kombis circulam sem dor de cabeça e com alguns detalhes: pequenos selos que garantem passagem direta pelos “pedágios”. São adesivos feitos para provar que as propinas foram pagas pelos topiqueiros. Figuras como pássaros, cavalos alados, iniciais de letras ou números. Segundo topiqueiros, os selos-propinas mudam a cada dois ou três meses. Quem não tem, além de parar na blitz e correr o risco de ser multado ou ficar horas sem circular, geralmente é impedido de parar nos melhores pontos de embarque e desembarque de passageiros.
Gravação revela como é feito o pagamento
Investigação feita no ano passado pela Coordenadoria de Segurança e Inteligência do Ministério Público mostra como é realizado o pagamento de propina. Agentes infiltrados em cooperativa de Santa Cruz filmaram o momento em que homem identificado como Leozinho recolhe dinheiro de um motorista. Segundo o relatório do MP, o rapaz tinha influência em quatro sociedades na região, entre elas a Cooperoeste, a Cooper São Sebastião e a Cooperpedra.
Em gravação, Leozinho admitiu que cada motorista pagava taxa de R$ 79 às quintas e R$ 64 aos sábados. Com a prisão dos principais líderes da Liga da Justiça, os pagamentos teriam cessado. Atualmente, estas cooperativas, antes dominadas pela Liga, são investigadas por ligação com o grupo do ex-sargento PM, Francisco César de Oliveira, o Chico Bala, também citado na CPI das Milícias.
Escute o áudio:
Líder de cooperativa ameaçado por Batman
A tomada da Cooper São Sebastião pela Liga, para receber propinas, foi feita em abril de 2007. Na época, grupo de 12 milicianos liderados por Ricardo Teixeira Cruz, o Batman, invadiu a sede da sociedade e agrediu o presidente Jorge Walter Queiroz de Alvarenga com tapa no pescoço. “Se você voltar para a cooperativa, vou te queimar dentro do seu carro”, teria ameaçado Batman, segundo o relato de dez testemunhas que estavam no local. Desde então, Jorge fugiu e a cooperativa passou a pagar R$ 3 mil semanais para a quadrilha.
A tomada da Cooperoeste pelo grupo de Batman também foi relatada por Paulo Roberto Marinho, presidente da cooperativa. Em 26 de abril de 2007, homens armados arrombaram o cadeado da associação e anunciaram que a partir de então “ali só entraria pessoal deles”. Estava montada outra ‘caixinha’ para a Liga.
Amanhã: Políticos de carona na bandalha
Jorge Batista
Jornalista/Radialista
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